Homens podem ou não cultuar Lilith?
- há 20 horas
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Uma leitura pessoal com base no culto e no estudo sobre Lilith.
Essa pergunta aparece toda vez que um vídeo de sacerdote afirmando que "não pode" viraliza, geralmente com a justificativa de que Lilith odeia homens ou que destruirá a vida de quem se aproximar dela.
O que trago aqui não é verdade absoluta, mas o que meu culto, meu estudo e minha vivência com essa energia me mostraram. Conheço muitos homens que cultuam Lilith e sustentam essa relação com profundidade e respeito. Em vez de negar ou defender posições, proponho um olhar estrutural: vamos à cosmologia que sustenta essa proibição e investigar de onde ela vem.
O lugar de Lilith na Árvore da Morte
Na Cabala, especialmente no estudo da Árvore da Morte, Lilith ocupa o trono de Gamaliel. Gamaliel é a esfera sombria de Yesod, o centro que rege sexualidade, instinto e os alicerces da psique. Lilith governa exatamente aquilo que escapa: desejo indisciplinado, sexo que não visa reprodução, potência que recusa controle moral ou social.
Na tradição cabalística judaica, a Árvore da Morte não é um caminho iniciático. É domínio das cascas, das Qliphoth, expressão do desequilíbrio espiritual. Não há permissão nem método para adentrar essas esferas. Há apenas advertência.
Nas correntes herméticas e luciferianas modernas, essa estrutura foi reinterpretada. O que antes era proibição se tornou mapa: cartografia das forças reprimidas, das zonas ocultas da consciência, do abismo interior que desafia a hegemonia do ego. Não se trata de ignorar a tradição, mas de deslocar o olhar da teologia para a iniciação.
Acesso e gênero: o portal e a travessia
Se Gamaliel corresponde ao inconsciente e à libido, isso não é território exclusivo de nenhum gênero. Todo ser humano tem sombra. Todo ser humano abriga um abismo interior. O que difere não é a permissão para entrar, mas a via de acesso.
Na magia, o útero é portal. Espaço de vazio, silêncio e sangue, representação física do Tehom, o Abismo primordial. A mulher carrega essa fenda no próprio corpo, vivendo o ciclo de esvaziamento e renovação todos os meses. Por isso, sua conexão com Lilith costuma ser visceral, orgânica, muitas vezes involuntária.
O homem não dispõe desse portal físico, mas possui o portal energético e mental. Ele não acessa Lilith pelo sangue, mas pelo mergulho no subconsciente, na própria sombra, na vontade consciente de romper as amarras do ego. A mulher é o portal. O homem atravessa o portal.
É importante entender, porém, que o ciclo feminino não é o único espelho do Abismo. Todo ser humano vive processos internos de destruição e reconstrução, momentos de ruptura e renascimento da própria psique. O útero manifesta o vazio no corpo, mas a ferida, a perda, o colapso das certezas e a reconstrução silenciosa também são travessias do abismo. Lilith não exige um corpo que sangre todo mês. Ela exige um psiquismo que aceite sangrar.
Lilith não é deusa da fertilidade
Outro argumento comum é que Lilith seria uma deusa da fertilidade e, como homens não geram vida, estariam excluídos do culto. Essa é uma confusão entre reprodução biológica e potência criadora.
Lilith não é mãe. Ela não preside partos, colheitas ou ventres férteis. Antes de ser absorvida por folclores posteriores, sua raiz mais arcaica está em figuras demoníacas mesopotâmicas associadas ao vento, à noite e ao desejo que ronda becos e desertos. Não se pede a Lilith que abra o útero, mas que desperte o que nele se esconde de selvagem.
Quando se fala em fertilidade no contexto dela, não se trata de gerar filhos, mas de gerar força, autonomia, consciência de si. O homem que cultua Lilith não busca fecundar uma mulher. Busca fecundar a própria psique, parir a si mesmo depois de atravessar o abismo. Isso não exige esperma. Exige coragem.
Silenciar o ego, enfrentar o indomável
Para isso, é preciso silenciar o ego solar, parar de tentar dominar a força e aprender a ser receptivo. Muitos se quebram nesse ponto. Quando se tenta preencher o Abismo com o próprio ego, ele reage como o fogo ao combustível: não por ódio, por natureza. Lilith não devora homens porque os odeia. Devora quem tenta domesticar o indomável.
A origem do estigma: Ben Sira, Samael e os ataques noturnos
Grande parte do estigma vem da narrativa medieval que a apresenta como primeira esposa de Adão, difundida no Alfabeto de Ben Sira. Essa tradição não integra o relato bíblico do Gênesis nem ocupa posição central na doutrina cabalística clássica. É uma construção folclórica tardia, relevante como documento de época, mas insuficiente para interditar o culto.
Mesmo nesse mito, Lilith não rejeita o masculino. Rejeita a submissão. Para reinar no Outro Lado, associa-se a Samael, força masculina, soberana, também marginalizada pelos discursos oficiais.
E os chamados ataques noturnos? A tradição popular diz que Lilith ataca homens durante o sono para sugar fluidos vitais. Historicamente, esse mito funcionou como bode expiatório para tudo que o imaginário antigo não sabia nomear: polução noturna, paralisia do sono, morte súbita. O medo do instinto se transformou em narrativa de perseguição.
Incubus e Succubus existem enquanto egrégoras. São forças reais que operam no campo do desejo, mas isso é troca energética, fluxo de força, não campanha moral. Uma força primordial não perde tempo caçando homens por ressentimento. Lilith não é almirante de guerra sexual.
O que Lilith realmente exige
Dizer que Lilith reina em Gamaliel é afirmar que ela governa o domínio do indomável, do erótico, do obscuro. Onde o ego perde controle, onde o sujeito se despedaça para se recompor em outros termos, onde o Caos se revela não como inimigo, mas como espelho.
Nesse território, gênero não determina acesso. Gamaliel não pergunta o que há entre as pernas, mas o que há dentro do abismo. O útero é portal, mas não é o único. A travessia também se faz pela ferida, pela mente que ousa esvaziar-se, pela vontade que se curva diante do que não pode ser domado.
Lilith não é amiguinha fofa de mulheres empoderadas, nem carrasca seletiva de homens desavisados. Ela é o Caos. Ignora pautas identitárias, etiquetas new age, demagogia ideológica. Quem se aproxima dela usando sua egrégora como validador de ego ou bandeira de militância, seja homem ou mulher, tende a se quebrar. O Abismo não escolhe lado. Apenas reconhece, ou não, a postura de soberania silenciosa que a corrente exige.
O que importa é a disposição de confrontar a própria sombra, de atravessar o Abismo sem tentar preenchê-lo com o eco do próprio nome.
Essa é a lente com que enxergo essa potência.
É nesse limiar, entre o que se foi e o que ainda se pode ser, que o verdadeiro contato com a força de Lilith se estabelece.
— Mari Kuste (Aeluriah)





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