A Tirania do Iniciado e a Balela do Dono da Magia
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A Tirania do Iniciado e a Balela do Dono da Magia
1. O Carteiraço do Fiscal da Magia
Sabe o que irrita muito hoje em dia? O tal fiscal de magia. O cara transformou a fé numa competição de ego e vive querendo dar lição de iniciado. É aquele sujeito que não consegue ouvir um relato ou ver um trabalho sem vir com um ah, mas na minha tradição... ou você não fez a iniciação, não sabe nada.
Ele se acha o tal, como se o segredo do Mundão dependesse do aval dele. Desculpa, mas isso é pura insegurança, é carência de se sentir importante, de estar num grupo e barrar os outros.
A real é uma só: iniciação não prova caráter e nem dá poder. Conheço gente graduada, cheia de títulos, que é gente pequena, que não resolve nem a própria vida. Passou pelo ritual, mas não mudou nada por dentro.
2. Quem Manda na Entidade?
O buraco é mais embaixo. Quando alguém fala que "Exu e Pombagira só existem dentro do terreiro", essa pessoa está cometendo um erro histórico e epistemológico grave. Ela ignora a gênese da própria feitiçaria brasileira.
A real é que, antes da cultura Iorubá, o Brasil recebeu os povos Banto (Angola, Congo). A visão Banto é mais ligada à feitiçaria, ao culto aos Inquices e ancestrais, de forma mais direta.
O Exu de trabalho tem muito de Pambu Njila e dos calundus coloniais do que das regras do Ketu. Ou seja, essa força já rolava nos quilombos antes de existir um cartório de Umbanda. O culto veio antes da instituição, sempre.
Quimbanda e Macumba Carioca não vieram de manual africano. São jeitos de sobreviver. Misturaram o livro europeu (São Cipriano estava nos terreiros), a magia indígena e o culto aos mortos africano. Dizer que só quem é de terreiro sabe é negar que o terreiro nasceu dessa mistura. A entidade não liga pro CNPJ. Ela se conecta pela energia e pelo acordo individual.
3. Ancestralidade é Seu Direito
Vamos falar uma coisa óbvia: Exu e Pombagira são forças ancestrais. São espíritos, mortos, de família. E aí? Alguém nasceu de chocadeira? Todo mundo tem pai, mãe, avó. Uma galera de mortos te acompanha. Ser ancestral não é coisa de religião, é da vida.
Se Exu e Pombagira são esses ancestrais, cultuá-los é seu direito. Proibir alguém de cultuar seus guardiões porque não está num terreiro é como proibir de honrar o avô porque não pagou o cemitério. É ridículo.
Aí vem o fiscal: Você pode cultuar, mas não pode usar o nome Exu ou Pombagira, porque o terreiro registrou. Que preguiça! Esses nomes já são adaptações. Pombagira veio do Banto Mpong i Njila ou Pambu Njila. O terreiro pegou emprestado e mudou o nome. Querem cobrar direitos autorais de uma palavra que já nasceu misturada? O nome é só um jeito de chegar lá. Querer proibir o nome é tentar controlar o vento.
4. Sem Lógica: Regra não é Lei
Essa ideia de só eu sei cai por terra quando a gente vê que nem nas religiões africanas existe regra geral.
Umbanda tem uma regra, a Cruzada tem outra.
Candomblé de Angola é diferente do Efón.
Tem lugar que acha Pombagira luz, tem lugar que acha força pesada.
Se nem os iniciados concordam, quem pode dizer que a prática de fora não vale? O que chamam de falta de regra é só não me obedece.
Existe uma confusão proposital aqui:
Dogma: É a regra social (cor da roupa, hierarquia, cargos). Serve para organizar a comunidade.
Fundamento: É a mecânica (como a energia se move, como se firma um ponto). É a técnica mágica.
Dá pra entender o fundamento (a técnica) sem seguir o dogma (o social). Exu e Pombagira são universais. Elas usam leis da natureza, não humanas. Querer prender uma Pombagira num terreiro é tentar segurar o mar com a mão. O mago que trabalha com essas forças fora da religião está usando a magia, não só seguindo a religião.
5. A Mentira da Segurança: Onde Está o Problema?
Aqui a coisa fica séria: terrorismo espiritual. O papo é sempre o mesmo:” Cuidado! Não acenda vela em casa, você vai chamar coisa ruim e sua vida vai virar um inferno.” Ou “você vai atrair um kiumba, precisa de um sacerdote”.
É medo disfarçado de cuidado. Eles fazem a fé ser perigosa e o terreiro, o lugar seguro. Mas será? Se preocupam com o perigo de atrair algo ruim em casa, mas ignoram as vidas destruídas dentro dos terreiros. Quantas pessoas tiveram a vida acabada por pais de santo ruins? Quantos casos de abuso moral, fé explorada e amarração vemos acontecer?
Na real, o que é pior: errar sozinho em casa e aprender, ou entregar sua vida a um líder que te controla? Qual a preocupação? Sua segurança ou te manter dependente? Porque é fácil falar que fora é perigoso quando você vende a segurança lá dentro. O terreiro sério é bom e cura, sim. Mas fingir que não tem gente ruim ali e que todo perigo está na rua é desonesto.
6. Terreiro é Escola, Conhecimento não
Vamos ser claros para não sermos simplistas. Reconheço o valor das casas sérias e da tradição. A briga aqui não é com o terreiro, mas com essa ideia de que só ele tem a chave do espírito.
O terreiro é uma escola. Um lugar de resistência, de memória, de aprendizado. É ali que se aprende a observar, a respeitar e a entender a força do grupo. A questão é: reconhecer a importância do terreiro não significa que ele pode monopolizar a fé.
Uma coisa é espiritualidade livre, outra é maluquice. A maluquice é aquela salada mista sem saber, baseada em achismo. Isso é perigoso. Já a fé por conta própria (o Caminho da Mão Esquerda, a Bruxaria de verdade) exige o dobro de estudo. Se você não tem um pai de santo, a culpa é toda sua. Precisa ir fundo: plantas, estrelas, história, energia.
A regra é só como a magia funciona. Dá pra aprender isso no terreiro? Sim, e que bom. Mas dá pra aprender estudando e se conectando direto. O terreiro é um jeito bom de aprender, mas não é o único.
7. Medo de Perder o Poder
A real é que rola um medo de perder o controle. Quando alguém fala que é perigoso estudar sozinho, muitas vezes o que está ali é medo de não ser importante. É a velha história de guardar o mercado. Se eu te convenço que só eu falo com Deus, você depende de mim. No momento em que você descobre que tem seu próprio sinal, tudo muda.
Mas vamos separar as coisas. O pai ou mãe de santo que é bom de verdade não tem medo da internet ou da liberdade dos outros. Esse líder sabe que o terreiro dele vai continuar cheio porque ele ajuda as pessoas, não porque as prende. É como aconteceu com os táxis quando chegaram os aplicativos. Quem era ruim quebrou. Quem melhorou, sobreviveu. O terreiro é um restaurante chique do espírito. Ele não precisa te proibir de cozinhar em casa para continuar importante. Ele se garante naquilo que sabe fazer.
8. Acabou a Brincadeira
Dá raiva, sim. É normal ver alguém conseguindo fácil o que você demorou anos para aprender. Ver um moleque falando sobre algo que você levou décadas para entender gera injustiça.
Mas aí entra a mentira. Quando reclamam, dizem: O sagrado não pode virar bagunça. Desculpa, mas a fé virou comércio antes da internet. Sempre rolou venda de bênção e exploração da fé. A internet não estragou a magia, só mostrou o que já existia. Deu voz para o sábio, mas para o idiota também.
É claro que, quando a porta se abre, a qualidade cai. O acesso fácil diminui o mistério e cria o risco de fé fast-food. Mas isso acontece no mundo todo e não tem volta. O desafio hoje não é achar a informação, mas saber o que presta. Agora, a escolha é sua.
— Aeluriah






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