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Por que o olhar do outro importa tanto?

  • Foto do escritor: Aeluriah
    Aeluriah
  • 9 de ago. de 2025
  • 2 min de leitura

Atualizado: 16 de nov. de 2025



Retrato artístico em tons de bordô profundo, preto e dourado desgastado. Duas figuras femininas aparecem sobrepostas: uma mais nítida e a outra desfocada, criando sensação de duplicidade e tensão emocional. O fundo tem textura de tinta arranhada e pinceladas abstratas. No centro, em tipografia serifada dourada, lê-se: “Por que o olhar do outro importa tanto?”. Assinatura “@aeluriah” aparece abaixo de forma discreta. A estética é sombria, filosófica e moderna.

O desejo de ser visto


A pergunta parece simples, mas carrega camadas que a maioria prefere ignorar. Não se trata só de vaidade ou carência emocional. O desejo de ser visto é anterior à linguagem. Ele nasce com a gente. A criança no berço não quer apenas companhia, ela precisa do olhar para se reconhecer como alguém que existe. O outro é espelho, é confirmação. E, por um tempo, é por esse reflexo que a gente se reconhece no mundo.


O problema começa quando esse reflexo vira regra. Quando o que deveria apenas confirmar começa a definir. Quando deixamos de existir em si para existir apenas no campo de visão do outro. A equação muda: não sou mais, a menos que alguém me veja. E veja como eu gostaria de ser percebida.


É aí que começa a distorção. A gente chama de empatia, de adaptabilidade, de amor. Mas, muitas vezes, é medo disfarçado. Medo de sumir se o outro desviar os olhos. Medo de ser ninguém sem testemunha. É compreensível, mas perigoso.


Querer ser reconhecida é humano. Querer ser amada também. Mas há um ponto em que esse desejo se infiltra na estrutura e começa a corroer. Quando o olhar externo pesa mais do que a sensação interna de verdade. Quando a régua da aprovação alheia substitui o próprio senso de existência. Quando o silêncio do outro fere mais do que a própria renúncia.


Nesse ponto, a gente já está no abismo.


E a queda costuma ser silenciosa. Quase imperceptível. Não tem ruptura dramática, tem erosão lenta. Um desvio aqui, uma concessão ali. Um “tanto faz” que se acumula até virar um “quem sou eu mesmo”. A gente começa a girar em torno de vontades que não são nossas, desejos que não nos habitam, expectativas que não pedimos, mas que aceitamos porque pareciam garantir permanência.


Esse tipo de permanência cobra um preço alto: a deserção de si. Aos poucos, você para de se perguntar o que sente, o que quer, o que acredita. O foco está fora. O esforço está em ser agradável, aceitável, desejável. E nisso se vai a autenticidade, que não grita, mas sangra.


É sutil, mas devastador.


O olhar do outro deveria ser lugar de encontro, não de camuflagem. Se para ser vista é preciso se esconder, então não é vista, é performada. E o mundo em que vivemos alimenta essa lógica o tempo todo. A imagem virou identidade. A exposição virou presença. E o aplauso, uma forma de amor descartável.


Mas sempre chega o momento em que o espelho quebra. E o que sobra, às vezes, é o vazio de não saber mais quem se é sem o reflexo do outro. Assusta. Dói. Mas também abre uma fresta. Porque nesse vácuo pode nascer uma pergunta que muda tudo: se ninguém me olhar, eu ainda quero ser quem eu sou?


Se a resposta for sim, começa a volta.

Se a resposta for não, talvez seja hora de reaprender a se olhar.


— Mari kuste / Aeluriah


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